1. CANTO IV
(M.Horta/J.C.Fialho/L.M.Oliveira)

“Canto IV” surge de um desafio lançado pela Portugal Progressivo – Associação Cultural a diversas bandas portuguesas: escolher um dos cantos de “Os Lusíadas”, de Luís Vaz de Camões e construir um tema. A idéia da PP-AC era reunir os diversos temas e editar uma antologia contemporânea da música progressiva portuguesa. O projecto não chegou a ser concretizado, mas os Beduínos a Gasóleo escolheram o quarto canto da obra de Camões e fizeram esta suite. A banda convidou o artista plástico e escritor Miguel Horta para escrever a letra. Na estrutura do tema, respeita-se a cronologia geral de Camões (o Canto IV começa em 1383 com a morte do rei Fernando I e termina em 1497 com a partida de Vasco da Gama de Lisboa para a Índia), mas inclui alguns factos históricos a que o poeta não fez referência em “Os Lusíadas”.

Parte 1. Morte do Formoso                                                           

Morre o rei Fernando I, o Formoso, sem herdeiro varão, lançando o país numa violenta crise social e política. A raínha viúva, Leonor Teles, governa o país tendo a seu lado o amante galego, o conde de Andeiro.

Parte 2. João de Boa Memória

Face à ameça do rei de Castela, que tinha casado com uma filha do rei Fernando, constituindo-se como pretendente à coroa portuguesa, o povo de Lisboa aclama em 1383 João, mestre da Ordem de Avis, filho bastardo do rei Pedro I (pai de Fernando I), regedor e defensor do Reino. O conde de Andeiro é morto, Leonor Teles foge. Dois anos depois, João é aclamado rei de Portugal pelas Cortes de Coimbra. 

Há uma nova idéia no ar
Em Lisboa um povo a transbordar
Vem o bastardo verdadeiro
Vamos saudar!

Juntam-se todos no terreiro
Morto já está o tal Andeiro
João, agora vais reinar
És o primeiro!

Parte 3. Aljubarrota

O novo rei João I, de Boa Memória, tem como primeira missão travar a invasão castelhana. As tropas portuguesas são comandadas e organizadas por Nuno Álvares Pereira, que consegue uma vitória decisiva sobre as forças invasoras em Aljubarrota, em 1385.

Batalha, lanças a vibrar
Brados, golpes a soar

Onde estás, ó meu amante?

Quadrado, forma fulminante
Tolhe Castela num instante

Onde estás, ó meu amante?
Onde estás, ó meu amante?

Parte 4. Ceuta

Feita a paz com Castela, Portugal vira-se para o norte de África e para o adversário muçulmano. Ceuta é conquistada em 1415.

O eco das batalhas
Desfazendo-se na espuma
Sulcando as águas
Vão surgindo
Os navios
Uma armada
Como antes não se viu

Ceuta debruçada sobre o mar
Alcáçova, castelo a conquistar

Vielas de cheiros
Coloridas por segredos escondidos

Parte 5. Infante Santo

As expedições ao norte de África foram marcadas por sucessos – e desaires. Em 1437, o infante Fernando, filho de João I, é feito prisioneiro numa tentativa falhada de conquista de Tânger e termina os seus dias no cativeiro.

Sozinho
Sonhando
O Império
Fernando

Sozinho, na cela, sonhando...
... e Santo Infante ficou.

Parte 6. Tânger à Terceira

A posição portuguesa no norte de África só seria consolidada décadas depois, no reinado de Afonso V, o Africano. Em 1471, após duas tentativas falhadas, Tânger é conquistada aos mouros, bem como outras praças-fortes.

As noites do deserto são frias
E o sol de dia é uma tâmara a arder
As muralhas tão perto em brazia
Esperam soldados ao amanhecer

Parte 7. Bojador

Entretanto, os Portugueses tinham-se lançado à descoberta da costa Africana. Em 1434, o navegador Gil Eanes atinge o Cabo Bojador, limite sul das terras conhecidas até então.

Parte 8. Navegador

O artífice e maestro da expansão foi o infante Henrique, outro notável filho de João I, que planeou e lançou missões de exploração sistemáticas cada vez mais a sul. Morreria em 1460, ano em que as caravelas portuguesas atingiram a Serra Leoa.

Senta-te irmão na praia
E pensa descobrir
E pensa dominar
Esse Mar

Senta-te irmão na praia
E pensa nesse mar
Que à tua frente
Se oferece... e se espraia

Senta-te irmão na praia
E pensa descobrir...
...dominar esse Mar.

Parte 9. Toro

O rei Afonso V, com a morte do monarca de Castela, Henrique IV, casa-se com a pretendente ao trono (a sua sobrinha Joana) e tenta unificar os dois reinos, mas conta com a oposição de Fernando e Isabel, os Reis Católicos. Em 1476, a batalha de Toro acabou com as ambições hegemónicas de Afonso V. Morreria cinco anos depois.

Parte 10. Príncipe Perfeito

A Afonso V sucede o seu filho João II, o Príncipe Perfeito, que já governava de facto o país durante os últimos anos de reinado do pai. João II imprimiria uma nova dinâmica à expansão marítima portuguesa. O objectivo era, declaradamente, encontrar uma rota para a Índia e para as suas especiarias que não passasse pelo controle muçulmano no Próximo Oriente.

Parte 11. África Padrão

Sempre mais para sul, as caravelas portuguesas reconhecem quase toda a costa ocidental africana. O navegador Diogo Cão atinge a foz do rio Zaire em 1483 e a Serra Parda em 1485.

Parte 12. Por Terra

A par das explorações marítimas, João II envia, em 1487, Afonso de Paiva e Pero da Covilhã numa expedição à Índia através do Egipto. Paiva morreria na jornada, mas Pero da Covilhã conseguiria não só chegar à Índia, como também reconhecer quase toda a costa oriental de África, assegurando-se da sua navegabilidade. Acabou por fixar-se na Etiópia, onde morreu, provavelmente, em 1530.

Alexandria
Cairo, Suez
Meca

Calecute
Cananor
Mogadíscio

Moçambique
Zanzibar
Lalibela

Etiópia...

Parte 13. Por Mar

No mesmo ano da partida de Pero da Covilhã, uma frota comandada por Bartolomeu Dias ultrapassa finalmente o Cabo da Boa Esperança, o extremo sul de África, e estabelece a ligação entre os oceanos Atlântico e Índico. 

Parte 14. Homem do Ovo

João II sabia agora que o caminho marítimo para a Índia, contornando a costa africana, era praticável. Mas sofre então um contratempo: Cristóvão Colombo, ao serviço dos Reis Católicos de Espanha, descobre as Caraíbas em 1492 e pensa ter atingido a Índia. Na viagem de regresso, aporta a Lisboa para dar a novidade a João II.

Parte 15. Tordesilhas

Com a nova realidade geográfica do Mundo, Portugal e Espanha sentam-se à mesa das negociações para definir as respectivas esferas de influência. As conversações são difíceis e mesmo uma intervenção do Papa Alexandre VI (cujos especialistas pouco percebiam de Geografia...) não facilita a conclusão do acordo. João II e os Reis Católicos chegam finalmente a um entendimento em 1494, com um tratado assinado na localidade castelhana de Tordesilhas.


Trocavam os poderosos
Promessas de pacotilha
Em busca da vantagem
À mesa da partilha
Discutindo uma linha
Discutindo o dia inteiro
Linha p’ra cá, linha para lá
Linha p’ra cá, linha para lá

Linha, linha, onde irás parar
Se nem Roma te sabe encontrar?

Não fique de fora alguma ilha
Esquecida em Tordesilhas
Linha para lá...

Parte 16. Venturoso

Depois da morte de João II, em 1495, sucede-lhe Manuel I, o Venturoso. Camões, em “Os Lusíadas” escreve que o rei teve um sonho em que lhe aparecem os rios Indo e Ganges, profetizando um glorioso futuro para Portugal. Em 1497, a armada de Vasco da Gama está pronta para partir do cais do Restelo, em Lisboa, para a primeira viagem à Índia pela rota da costa africana.

O dossel é uma barca
Enquanto sonha Manuel
E a barca vai...
Vai sempre para lá
E não se sabe onde Manuel aportará

O seu sono é um tropel
Por terras de ouro e mel... vai
Vai sempre para lá
Ninguém sabe se Manuel acordará
Ninguém sabe que Manuel acordará...

Acorda, Manuel
Já é dia, afinal
No areal despertam barcas
À espera do sinal

Sempre para lá...

Parte 17. Partida

No momento da partida de Vasco da Gama, Camões coloca em cena a personagem simbólica do Velho do Restelo: um homem que invectiva os navegadores, perguntando-lhes que sacrifícios mais serão pedidos ao povo para satisfazer a cobiça e a vaidade de alguns. Termina assim o “Canto IV” de “Os Lusíadas”.

Vã glória...



2. BIODIESEL
(J.C.Fialho/L.M.Oliveira)

(instrumental)



3. DESCULPA LÁ (incluindo PLANÍCIE)
(J.C.Fialho/L.M.Oliveira)

Desculpa lá,
Algo aqui não está
A correr bem
Encontra aí
Bem dentro de ti
O zé-ninguém

Acrescento, irreflectido
Um lamento despercebido

Descobre lá
Quando ficará
Morto o desdém

Descobre lá
O que a terra dá
Sem semear
Empresta aí
Um pouco de ti
Sem protestar

Sobe o vento sem um gemido
Instrumento tão comedido

Empresta lá,
Algo aqui não está
A correr bem

Fugimos pela planície
Os carniceiros estavam já perto
Subimos pelo eclipse
E de permeio senti-me desperto
À beira do precípicio

Circunstância de mudança, impertinência da cidade
Ofuscado à distância, à procura da saudade...

Mudo
Cego
Ensurdecido cedo pela voz da realidade...

Ensurdecido cedo pela voz da realidade
Circunstância de mudança
Ofuscado à distância
Morto sem apelo às mãos da liberdade

Desculpa lá,
Por aqui não há
Sonhos no ar
Protesta aí
Bem junto de ti
Quando falhar

Um momento enternecido
Sentimento repercutido

Protesta lá,
Algo aqui não está
A correr bem

Fugimos pela planície
Os carniceiros estavam já perto
Subimos pelo eclipse
E de permeio senti-me desperto
À beira do precipício

Atina lá, qualquer coisa dá.

Desculpa lá estar aqui... a complicar
Desculpa lá estar aqui... para te lembrar
Desculpa lá ser assim... para te tentar acordar

Desculpa lá,
Algo aqui não está a correr bem.