Canto IV


E, de repente, vi-me envolvido num projecto musical, tendo como pano de fundo o “Canto IV” de Luís de Camões. Os músicos têm um nome estranho, “Beduínos a Gasóleo” e conduzem os trechos habilmente, como se as dunas do deserto, que bem conhecem, fossem as ondas do Mar para onde Camões nos transporta ao longo do seu livro. Ficou logo claro, pela voz de José Carlos Fialho, timoneiro da embarcação, que a obra de Camões não deveria ser vista como um poema de Estado. Disto mesmo me apercebi ao escutar os esboços musicais que convocavam atmosferas e momentos do nosso passado num registo de Rock Progressivo. Foi com grande alegria que soube que Janita Salomé iria emprestar a sua mestria na construção das atmosferas musicais que dariam corpo ao projecto.
A minha escrita...Bem...Essa nunca poderia ser feita em cima dos poemas que aprendemos nos bancos da secundária. Nasceu, num discurso paralelo, como se fora um outro instrumento musical compondo as imagens que agora vos propomos.
Comovi-me quando escutei, pela primeira vez, o momento em que o Infante está sentado na praia olhando o mar e ri-me com a interpretação do Tratado de Tordezilhas. Outros trechos foram feitos na sala de ensaios, envergando já o traje de beduíno por empatia, corrigindo métrica e propondo soluções; lavrando a escrita durante os ensaios. Exemplo desse estar criativo: o “Sonho de D. Manuel”. Belas semanas que se viveram!
Disse-me uma amiga bibliotecária escolar, que o nosso trabalho tem um pendor pedagógico que deveria ser explorado. Fico a pensar nas suas palavras ecoando em mim outras, do meu passado, em que Eduarda Dionísio no Liceu Camões dizia: “Oiçam no poema o ribombar das aliterações dando uma imagem completa da batalha...”
Boa viagem, Beduínos!

Miguel Horta, Setembro de 2007